domingo, 17 de outubro de 2010

PASSO A PASSO DA CRÔNICA

A crônica é um gênero híbrido, que mistura a narrativa – jornalística ou literária – e a dissertação – portanto deve conter um ou mais comentários (argumentos), não necessariamente comprováveis cientificamente, por tratar-se de um texto opinativo.
         Nesta nossa empreitada, vamos trabalhar com uma narrativa jornalística. Ela servirá de base e de mote para desenvolvermos nossos comentários. Vamos ao trabalho!
PRIMEIRO PASSO:
·                  Você precisa encontrar um assunto que chame a sua atenção. Vamos imaginar que o assunto que você escolheu seja o atropelamento daqueles dois jovens em São Paulo. Pesquise a notícia.

Motorista joga carro contra jovens e mata um em SP, diz testemunha
Outro rapaz atingido sofreu traumatismo craniano e está na UTI.
Um terceiro conseguiu escapar de ser atropelado nesta madrugada.
Um motorista em um carro preto de pequeno porte, de acordo com relato de uma testemunha, teria arremetido o veículo contra três rapazes que atravessavam uma rua no Jardim Marajoara, na Zona Sul de São Paulo, na madrugada deste sábado (30). Segundo uma testemunha que não quer se identificar, ele acelerou o carro e conseguiu atingir dois jovens. 
Um, de 22 anos, morreu e outro, também de 22, encontra-se internado na Unidade de Terapia Intensiva no Hospital Santa Marina, no Jabaquara, também na Zona Sul, com traumatismo craniano e em estado gravíssimo. A assessoria da Secretaria da Segurança Pública confirmou as informações. No boletim de ocorrência foi registrado que o motorista não prestou socorro  às vítimas. A polícia vai investigar se o atropelamento foi intencional ou não. 
Por volta das 4h30, os rapazes estavam conversando na esquina da Rua Dr. Ferreira Lopes e Rua Olavo Bilac quando o motorista os abordou e os questionou sobre que “traveco” - termo que foi utilizado, segundo a testemunha - teria danificado o carro dele, que, aparentemente, estaria com o parabrisa avariado. Os rapazes, então, responderam que não sabiam.
De acordo com a testemunha, o motorista arrancou em velocidade e deu a volta no quarteirão com o carro. Ao avistar os rapazes atravessando a rua, ele teria acelerado e os atingido propositalmente, segundo a testemunha. Um dos jovens foi atendido e socorrido pelos bombeiros e o outro, por uma ambulância do Samu. 
Inicialmente, as vítimas foram levadas para o Hospital Regional Sul e depois para o Hospital Santa Marina. Segundo esta testemunha, o motorista estava com gel no cabelo castanho curto, era musculoso, usava corrente no pescoço e vestia uma blusa bege.

O terceiro jovem, que conseguiu escapar do atropelamento, encontra-se em estado de choque, de acordo com esta testemunha. O caso foi registrado no 99º DP, no bairro Campo Grande, na Zona Sul de São Paulo, como homicídio culposo (quando não há a intenção) na direção de veículo automotor, lesão corporal culposa e omissão de socorro. A polícia deverá requisitar as gravações de sistemas de segurança de condomínios próximos para tentar identificar o veículo. (fonte: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1176987-5605,00.html, acessado em 04/06/09)
SEGUNDO PASSO:
·         De acordo com o texto que enviei pelo e-mail, deve-se ler a notícia,  fazendo as seguintes perguntas:

Ø  Qual o fato ocorrido?
Ø  Quando penso nesse fato, a primeira idéia que me vem à mente e?
Ø  Na minha opinião esse fato é...
Ø  Se eu estivesse nessa situação, eu...
Ø  Ao saber desse fato eu me senti...
Ø  Sobre esse fato, as pessoas estão dizendo que...
Ø  A solução para isso...
Ø  Esse fato está relacionado com a minha realidade, pois...
Essas questões não devem aparecer literalmente em seu texto, mas servirão de base para desenvolvê-lo etapa por etapa. Para a redação a seguir, escolheu-se o subtipo  crônica-ensaio (narrativa-dissertativa-argumentativa), na qual a autora se coloca no papel de mãe.

         O Brasil inteiro ficou chocado com uma notícia veiculada neste último final de semana (30/06). Um jovem, ainda não identificado, abordou três rapazes em um cruzamento de um bairro nobre de São Paulo durante a madrugada. Segundo uma testemunha, esse jovem queria que os rapazes lhe dissessem quem teria avariado o parabrisas do carro dele. Como os rapazes abordados não sabiam ou não quiseram lhe contar, o jovem entrou em seu carro, deu a volta no quarteirão e, quando avistou os rapazes no cruzamento, arremeteu seu veículo contra os três. Saldo dessa cena angustiante e terrível: um morto, outro ferido gravemente e um terceiro em estado de choque. (Esse é o resumo do fato. Bem resumido)
        Cenas de violência explícita e sem motivo lógico ou racional têm se tornado uma constante na vida de todos os brasileiros. O que não as torna fatos normais ou naturais. Não há ninguém que, em sã consciência, possa afirmar que isso é normal nos dias de hoje, porque não é.essa é minha tese (crônica dissertativa-ensaio) Não pode ser. Acontecimentos como o descrito acima têm que chocar. Têm que deixar a todos revoltados. Têm que fazer reascender dentro de cada pessoa da sociedade alguma chama ou resquício de humanidade. O ser humano, afinal, evoluiu do tempo das cavernas; não é mais um bicho-homem, tem que ser homem – humano – com todas as características dessa humanidade bem à flor-da-pele.
        Não sou médica, terapeuta ou psiquiatra para explicar o que leva um ser humano a dar mais valor ao parabrisas de um carro, do que a três vidas humanas. Duvido, até, que esses profissionais consigam justificativas para um ato inominável e abominável como este. Não pode haver razões para isso, porque não há razão nisso. Há somente violência, desprezo humano, coisificação da vida humana. A vida já não vale mais que um objeto para algumas pessoas. Alguns se esquecem que objetos podem ser repostos. Vidas humanas não.minha justificativa; os argumentos que sustentam a minha tese
       
            ConclusãoSinto uma dor profunda quando tomo conhecimento de ocorrências assim. Coloco-me no lugar das mães do morto e dos feridos e também da mãe do monstro que, de alguma forma, marcou indelevelmente a vida das pessoas envolvidas nesse episódio.
       
        Penso na mãe que perdeu seu filho por motivo torpe. Penso na mãe do ferido que ainda não sabe se seu filho voltará a ser o que e quem era antes. Penso na mãe do sobrevivente que está em choque e talvez jamais consiga ser a pessoa que era. Um choque como esses deixa seqüelas profundas. Não na pele. Na alma.
       
        Por fim, penso na mãe do monstro. Não há outro adjetivo para ele. O que ele fez é uma monstruosidade. Não é só crime, é maldade pura. Só monstros cometem maldades sem nenhuma razão lógica ou humana.
       
        Que sentimentos estão passando pelo coração dessa mãe? Terá ela consciência da bestialidade cometida por seu filho? Terá ela dor pelas perdas que ele provocou? Terá ela capacidade de perdoar aquele a quem gerou, cuidou e educou? Teria eu essa capacidade? Realmente não sei responder a, pelo menos, essa última questão. Não sei se conseguiria entender um ato desses, cometido por um filho meu. Talvez o renegasse. Talvez tentasse excluí-lo da minha vida. Talvez não o perdoasse.
       
        Uma coisa apenas eu sei. Não o esconderia. Não o acobertaria. Não o ajudaria a fugir às suas responsabilidades. Não lhe daria trégua até que ele respondesse por seu ato criminoso, torpe e bestial. Seria eu o seu primeiro algoz.

       
TERCEIRO PASSO:
  • Escolher um título para a crônica. Todo título deve estar, de forma explícita ou indireta, contido dentro do texto.
As possíveis escolhas seriam:       A vida sem valor
                                               Dor e morte na madrugada
                                               Quando a humanidade morre
                                               O que move um assassino
QUARTO PASSO:
  • Assinar a crônica e colocar as minhas credenciais.
Findos todos os passos é hora da revisão para fazer as correções e adequações necessárias. O texto final ficaria assim:

                               Quando a humanidade morre
Marilza Reis*

        O Brasil inteiro ficou chocado com uma notícia veiculada neste final de semana (30/06). Um jovem, não identificado, abordou três rapazes em um cruzamento de um bairro nobre de São Paulo durante a madrugada. Segundo uma testemunha, esse jovem queria que os rapazes lhe dissessem quem teria avariado o parabrisas do carro dele. Como os rapazes não sabiam ou não quiseram lhe contar, o jovem entrou em seu carro, deu a volta no quarteirão e, quando avistou os rapazes no cruzamento, arremeteu seu veículo contra os três. Saldo dessa tragédia: um morto, outro ferido gravemente e um terceiro em estado de choque.
        Cenas de violência, sem motivo lógico ou racional, têm se tornado uma constante na vida de todos os brasileiros. O que não as torna fatos normais ou naturais. Não há ninguém que, em sã consciência, possa afirmar que isso é normal nos dias de hoje, porque não é. Não pode ser. Acontecimentos como esses têm que chocar. Têm que deixar todos revoltados. Têm que fazer reascender dentro de cada pessoa da sociedade alguma chama ou resquício de humanidade. O ser humano, afinal, evoluiu do tempo das cavernas; não é mais um bicho-homem, tem que ser homem – humano – com todas as características dessa humanidade bem à flor-da-pele.
        Não sou médica, terapeuta ou psiquiatra para explicar o que leva um ser humano a dar mais valor ao parabrisas de um carro, do que a três vidas humanas. Duvido, até, que esses profissionais consigam justificar este ato inominável. Não pode haver razões para isso, porque não há razão nisso. Há somente violência, desprezo humano, coisificação da vida humana. A vida já não vale mais que um objeto para algumas pessoas. Alguns se esquecem que objetos podem ser repostos. Vidas humanas não.     
        Sinto uma dor profunda quando tomo conhecimento de ocorrências assim. Penso na mãe que perdeu seu filho por motivo torpe. Penso na mãe do ferido que ainda não sabe se seu filho voltará a ser o que e quem era antes. Penso na mãe do sobrevivente que está em choque e talvez jamais consiga ser a pessoa que era. Um choque como esses deixa seqüelas profundas. Não na pele. Na alma.
        Por fim, penso na mãe do monstro. Não há outro adjetivo para ele. O que ele fez é uma monstruosidade. Não é só crime, é maldade pura. Só monstros cometem maldades sem nenhuma razão lógica ou humana.
        Que sentimentos estão passando pelo coração dessa mãe? Terá ela consciência da bestialidade cometida por seu filho? Terá ela dor pelas perdas que ele provocou? Terá ela capacidade de perdoar aquele a quem gerou, cuidou e educou? Teria eu essa capacidade? Realmente não sei responder a, pelo menos, essa última questão. Não sei se conseguiria entender um ato desses, cometido por um filho meu. Talvez o renegasse. Talvez tentasse excluí-lo da minha vida. Talvez não o perdoasse.
        Uma coisa apenas eu sei. Não o esconderia. Não o acobertaria. Não o ajudaria a fugir às suas responsabilidades. Não lhe daria trégua até que ele respondesse por seu ato criminoso, torpe e bestial. Seria eu o seu primeiro algoz.


(*) Marilza Reis é formada em Língua Portuguesa pela UFMT e professora de Língua Portuguesa em escolas pública e particular da cidade de Campo Verde-MT. marilzavreis4@hotmail.com

16 comentários:

  1. Nossa Ficou muito bom! meus parabéns me ajudou bastante muito obrigado!

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  2. Marilza, excelente trabalho, muito bem detalhado e esclarecedor. Vou usar nas minhas aulas. levidal@bol.com.br

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  3. Marilza
    Como você, também sou professora. E também amo a Língua Portuguesa.
    Adorei a forma simples e objetiva que você usa para tratar os diferentes gêneros. Posso pegar emprestado? Prometo que cito direitinho de onde eu tirei o material.

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  4. valeu agora eu tiro um 10 nessa prova que eu tenho

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Muito obrigado me ajudo muito agora acho que vou tirar uma nota boa na prova de produçao textoal.

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  7. ADOREI
    SEM DUVIDAS AGORA
    TIRO PELO MENOS UM 09 NA PROVA DE
    PORTUGUES

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  8. ADOREI
    SEM DUVIDAS AGORA
    TIRO PELO MENOS UM 09 NA PROVA DE
    PORTUGUES

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  9. Excelente contribuição!!!
    obrigado.

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  10. O texto foi muito bem produzido e bem feito. Me ajudou de forma grandiosa. Agora ,sim, entendi o assunto.Obrigada!

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  11. O texto foi muito bem produzido e bem feito. Me ajudou de forma grandiosa. Agora ,sim, entendi o assunto.Obrigada!

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  12. Ainda não consigo criar uma crônica mais valeu a tentativa ler essa pagina

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