domingo, 17 de outubro de 2010

PASSO A PASSO PARA O CONTO FANTÁSTICO



        O conto, como gênero literário da prosa de ficção, representa, consideravelmente, os acontecimentos humanos. Por sua brevidade, gera tensões condicionadoras de várias situações, narradas em um certo espaço de tempo.
            Caracteriza-se por apresentar a narratividade como marca essencial. Além disso, apresenta brevidade, opondo-se à novela e ao romance, quanto à sua extensão. Outros elementos estruturais acentuam as especificidades do conto como gênero literário: o reduzido número de personagens; a concentração do espaço e do tempo em um único relato; e a ação que tende à simplicidade e à linearidade. Um texto, portanto, conciso e breve que busca, na “economia” das palavras, denunciar a condição de rapidez a que se encontra submetido. Sua dimensão de complexidade se dá na profundidade do que foi dito, provocando uma unidade de efeito, condição basilar de sustentação semântica.
            Quanto à personagem, há, de maneira geral, um mergulho em seu mundo íntimo, de forma a buscar uma explicação para as “angústias” que a vida traz, remexendo em dilemas de natureza vária (social, existencial, comportamental, imaginária etc) a fim de encontrar um sentido, um “porquê”, para situações cotidianas que parecem não ter explicação. Por isso a desambientação, a perturbação interior e os desajustes entre o particular e o exterior, percebidos pelo leitor ativo, quando passa a ser informado e adentra nos fatos narrados, afim de compor o painel das circunstâncias.
            A narrativa contemporânea, foco de minha atenção e prazer literário, trás no conto uma de suas expressões mais significativas, principalmente quanto à liberdade e eficácia comunicativa que marca seu percurso histórico. Da oralidade, o hábito de contar histórias, à imprensa, meio de vida dos artistas em épocas anteriores, o conto vem se firmando como uma forma sintética e magnetizante de contar histórias, hipnotizando o leitor e desafiando o escritor. (Gladys Ferreira/Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=42316#ixzz12ezxwh7P )
         
     Como vocês perceberam, emprestei essa introdução, pois a considero bastante interessante para o que vamos fazer. Tendo em mente algumas características básicas do conto, para transformar esse conteúdo em um conto fantástico, basta acrescentarmos um elemento maravilhoso, que é fora do comum, extraordinário, prodigioso. Mas o que é isso?
        O elemento fantástico pode ser um animal que fala ou seja capaz de subverter a realidade (realidade ficcional!); pode ser um mineral mágico (lembram do pó de pir-lim-pim-pim?); uma pedra que realiza magias; uma bruxa; uma fada; ou qualquer coisa do gênero. Lembram da Alice que caiu em um buraco e foi transportada para o mundo da fantasia? Ou a Dorothi, do Mágico de Oz? É isso!

           Vocês entenderão melhor com o passo a passo.

PRIMEIRO PASSO:
         Imaginem uma situação do cotidiano, qualquer uma: um passeio  apressado por uma praça ou jardim, a hora do almoço no meio da rua – pessoas circulando, você com pressa para almoçar e voltar ao trabalho – uma visita inesperada de um parente ou amigo, que traz com ele uma pessoa estranha – o batizado de uma criança, o velório de alguém, a caminhada de ida à escola, qualquer coisa.

SEGUNDO PASSO      
        Escolhida a situação comum, mundana, com a qual você sempre conviveu naturalmente, imaginem algo que pudesse torná-la especial ou estranha: uma música, um pássaro, uma flor, uma pedra encontrada no caminho, uma pessoa diferente das outras; qualquer elemento que você nunca tenha percebido como parte dessa situação banal.

TERCEIRO PASSO
        Escolhido esse segundo ingrediente, comecem a pensar em como ele tornaria a situação comum em especial.

QUARTO PASSO
        Juntar os ingredientes... Eu vou escolher o seguinte:
- situação comum: minha ida diária para a escola
- objeto ou algo inusitado que aparece: um pássaro canoro
- como esse pássaro poderia transformar algo comum em especial: ele cria ao meu redor um ambiente mágico, que me conforta e me faz feliz.


____________________________ (futuro título)

        Hoje me aconteceu algo inusitado, que me fez recordar o passado. Há muitos anos  não pensava sobre esse assunto e, de repente, tudo voltou à minha memória, como se tivesse acontecido ontem. Foi estranho, mas me trouxe de volta uma alegria que não sentia há muito tempo.
         Lembrei-me de quando criança e das minhas idas à escola. Era um momento tenso, angustiante até. Tinha dificuldades para acordar de manhã. Era o meu melhor sono, interrompido sem piedade por minha mãe. Sem nenhum constrangimento, ela cutucava o meu corpo, avisando que o relógio já havia tocado. Não satisfeita, puxava com força as cortinas, obrigando meus olhos sonolentos a contemplar a claridade do novo dia. Claro que isso não era suficiente para me pôr de pé. O ritual precisava ser repetido até que ambos perdêssemos a paciência uma com a outra.
         Já de mau humor, levantava-me, tomava meu café, trocava-me e punha-me a enfiar apressada todo o material que encontrava pela frente dentro da mochila, sem a mínima preocupação se precisaria dele ou não naquele dia. Invariavelmente eu errava alguma coisa e era aquele problema durante as aulas. Nunca estavam completas as minhas coisas: se tinha caderno, faltava o livro. Se tinha o lápis, faltava o apontador ou a borracha ou alguma coisa de que realmente eu fosse precisar.
         Da minha casa até a escola eram vinte minutos de caminhada, que eu fazia aborrecida e de cabeça baixa. Jamais encontrava um único colega pelo caminho, por mais estranho que isso possa parecer. Talvez porque eu não levantasse a cabeça para ver quem estava na rua junto comigo. Vai ver é isso.
         Aquele dia não foi diferente. Não a princípio. Tudo transcorreu como de costume. Nenhum fato extraordinário me chamou a atenção. Fiz tudo igual, como todos os dias.
         Já a caminho da escola, emburrada, resolvi tomar um atalho por entre alguns terrenos baldios existentes. Pensei em chegar mais cedo e arrumar minhas coisas, para não ter de ouvir meus colegas caçoando por ter esquecido isso ou aquilo, outra vez. Os terrenos eram todos interligados, formando uma espécie de bosque. As árvores pareciam imensas formas escuras e a luz do dia tinha dificuldade de atravessar as suas copas. “Melhor, evito de encontrar alguém conhecido pelo caminho” – pensei. Como se isso já tivesse acontecido antes...
         Estava caminhando havia alguns minutos, quando percebi que o lugar era habitado por uma infinidade de pássaros. Estranhei a algazarra que eles faziam, pois nunca havia ouvido nenhum barulho antes, quando passava ao lado daqueles terrenos. Como isso era possível? Ali dentro era uma festa! Como eles poderiam se esconder das pessoas? Será que alguém sabia da existência deles? Enquanto pensava, continuei andando.
         Foi então que percebi um vulto cruzar por sobre a minha cabeça. Uma, duas, três vezes seguidas. Arrepiei-me. Seria um morcego? Não, morcegos não voam de dia... acho! Apertei o passo, tentando chegar ainda mais rápido à escola. De repente, aquele lugar que eu abominava, parecia ser o melhor local para se estar naquele momento; incoerência das incoerências!
         Porém, por mais que me apressasse, parecia que o caminho tornava-se mais longo a cada momento. Já estava ficando cansado de carregar todo aquele peso nas costas e arrependia-me da decisão de ter escolhido aquele “atalho” que me deixava cada vez mais distante da escola. Além de tudo, tinha aquele vulto passando de um lado para o outro a todo o instante.
         Parei. O vulto deteve-se também. Não atrás de mim, logo à frente, como se me espreitasse. Pensei uma ou duas vezes em voltar e ir pelo caminho usual. Mas ter que andar tudo aquilo de volta e ainda ter de ir à escola? Não! Nem pensar! Vou enfrentar essa coisa, seja ela o que for.
         Dei alguns passos em direção ao desconhecido e me deparei com um pássaro. Não era um pássaro qualquer, era um lindo e minúsculo pássaro branco. “Como pude ter medo de algo tão pequeno e indefeso” – pensei de mim para comigo; afinal, não havia mais ninguém lá... só poderia estar falando comigo mesma!
         Ele ficou parado à minha frente, imóvel. Era possível tocá-lo, se quisesse. Não quis. Fiquei contemplando-o por alguns instantes, enquanto ele bicava suas penas, engolia um inseto ou outro e movia seu pescocinho para lá e para cá, sem cessar. Ele parecia querer falar comigo (como se isso fosse possível!). Então, começou a cantar. Era um trinado suave, longo e cheio de tons e semitons dobrados. Não que eu fosse especialista em pássaros, mas nunca tinha ouvido um canto tão belo. Principalmente vindo de um animal tão pequeno. De onde vinham todos aqueles sons maravilhosos se seu corpinho era tão frágil e pequeno?
         Por um longo período fiquei ouvindo o seu cantar, esquecendo-me completamente da escola... ah, a escola... Meu Deus! A escola! Tenho que chegar rápido. Certamente já estou atrasada! – desesperei-me.
         Contornei com agilidade a árvore em que o passarinho estava. Não queria mais perder tempo. Apressei meus passos novamente, mas o passarinho continuou a voar sobre a minha cabeça e não parava de cantar. Às vezes, ele cruzava a minha frente e quase batia a suas asas em mim. Começou a ficar desesperador. Estava ficando sem fôlego e cada vez mais assustada. Parei. O passarinho parou também. Tive medo. Aquele minúsculo pássaro estava me colocando em pânico.
         Recobrei o meu fôlego e tomei uma decisão: “vou me acalmar” – disse em voz pouco crente naquilo que pronunciava. Enquanto falava tais palavras, percebi ao meu redor uma porção de crianças, como eu. Todas caminhavam tranquilamente por entre as árvores e todas tinham um passarinho voando bem à frente delas. Como isso era possível? Não era uma só. Eram várias! Comecei a prestar atenção naquela cena. Nenhuma das crianças me era completamente desconhecida. Pareciam todas alunos da minha escola. Tinha certeza! Aqueles eram meus colegas de escola!
         Tirei a mochila das minhas costas, para aliviar a tensão dos músculos do meu pescoço. Tomei coragem e recomecei a andar. Logo meu pássaro (neste momento eu já havia me apossado dele) também retomou o seu vôo à minha frente, sempre cantando. Percebi que o caminho ficava cada vez mais suave, mais amplo... as árvores já não faziam tanta sombra e era possível ver e sentir a luz e o calor do sol. Meu passarinho estava comigo e eu sentia uma calma profunda tomando conta de todo o meu corpo. Minhas costas pararam de doer e meu mau humor era agora um sentimento de felicidade e satisfação.
         Acho que só hoje sou capaz de nomear essa sensação, pois naquele tempo eu não conhecia o que era felicidade ou satisfação. Quase sem me dar conta, cheguei à escola. Batava atravessar a rua. Não sei quanto tempo fiquei naquele bosque. Só sei que, pela primeira vez, estava tranqüilo.
         Para surpresa minha, eu estava muito adiantado para o início das aulas. Fui para a minha sala, sentei na minha carteira e tentei colocar em ordem meus pensamentos. Será que eu sonhei? Aos poucos meus colegas foram chegando. Eu os reconheci do bosque. Acho que foi a primeira vez que eu realmente os vi. Eles estavam tagarelando à minha volta e isso me fez recordar a algazarra dos passarinhos... Estranho!
         As aulas daquele dia transcorreram sem que eu me desse conta delas. Para falar a verdade, nem imagino que aulas tive naquele dia. Só pensava na hora de voltar para casa. Teria eu coragem de atravessar o bosque novamente? Tive. Foram ótimos os momentos que passei ali. Meu pássaro estava à minha espera e voltamos juntos, ele cantando e eu tagarelando com meus colegas. É, eles também estavam lá!
         Durante todos os outros anos em que freqüentei a escola foi assim. Levantar já não era um suplício. Não via a hora de reencontrar meus amigos e meu pássaro. A ida para a escola passou a ser uma festa, para todo mundo, e foi assim que eu terminei meus estudos.
         Depois fui para a faculdade em outra cidade e tive de abandonar o meu belo e minúsculo pássaro branco. Muitos dos meus amigos da escola também foram para a mesma cidade que eu, e continuamos com nossa amizade por um longo tempo. Tempo! Ele que nos tornou tão unidos uns com os outros também foi responsável por nos separar. Acho que isso significa ser adulto: abrir mão das coisas da nossa infância e, ainda assim, insistir em ser feliz.
         Mas hoje, ao voltar do trabalho, em meio aos roncos dos motores de ônibus e carros; em meio à poluição sonora que estraga toda e qualquer cidade grande, tive certeza de ter ouvido o meu pássaro novamente. Foi por um instante, mas pude ouvi-lo com total nitidez. Não foi possível parar para procurá-lo. Estava no ônibus e ele não para em qualquer lugar. Sei que já se passaram muitos anos. Entretanto, tenho certeza de reconhecer aquele canto. Não sei ao certo de onde ele vinha. Porém, sei que perto do escritório tem um pequeno bosque. Não vejo a hora de chegar amanhã para tentar reencontrar meu pássaro.
Marilza Verni Reis

QUINTO PASSO
Encontrar um título. Tarefa difícil essa!
·         Outro dia da minha infância
·         Um certo pássaro branco (esse parece coisa do Érico Veríssimo!)
·         Meu lindo e minúsculo pássaro branco (esse foi meu filho que escolheu!)

        Vou ficar com o primeiro. Bom é isso. Espero que vocês não tenham morrido de tédio por terem de ler meu conto fantástico. Espero, também, que ele possa ajudá-los a fazer o de vocês.
Beijos.

11 comentários:

  1. Muito Bom, vou começar a produção do meu, porém, o meu já tem um tema definido ;D

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  2. amei essa dica, minha professora meu 10 na redação

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Obrigado você me ajudou e tirou minhas duvidas

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  5. Copiei esse texto e tirei 9 valeu

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  6. Está de parabéns obrigado pela ajuda, irei começar a fazer meus primeiros contos

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  7. Esta cor de texto que vc colocou na onda pra ler direito tá muito difícil. Mas o artigo e bom

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  8. eu adorei terei que fazer um daqui a alguns dias, entendi melhor como faze-lo e espero mesmo que isso ajude mais pessoas do que só eu.
    Abraços e Beijos pra você.

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