domingo, 17 de outubro de 2010

PASSO A PASSO DO ARTIGO DE OPINIÃO

O artigo de opinião inscreve-se entre os gêneros textuais mistos, assim como a crônica. Ele pode (mas não é obrigatório) ter uma parte narrativa e outra dissertativa de cunho pessoal, subjetiva, baseada nas impressões do indivíduo que a produz. Por isso, é possível se fazer uso da primeira pessoa ao escrevê-lo. Ao contrário da crônica, porém, os argumentos que sustentam a parte dissertativa não são de natureza meramente emocional; devem conter maior racionalidade (baseados na razão, mais do que na emoção).

PRIMEIRO PASSO
            Escolher uma notícia, reportagem ou fato que sirva de pretexto para a argumentação. No caso, escolhi uma reportagem sobre Biotecnologia, cujo texto é o que segue:
Biotecnologia - O futuro chegou
Por Gabriel Manzano Filho - gmanzano@edglobo.com.br
A genética abre novos caminhos, domina a natureza e aproxima a ficção da vida real
Atravessamos as últimas décadas embevecidos, ou atribulados, com Einstein e a relatividade, Oppenheimer e a bomba atômica, o homem na Lua, a televisão, o computador. Mas que ninguém estranhe se, muito em breve, aparecer alguma boa cabeça dizendo: "Século da ciência, que coisa vaga! Tínhamos diante do nariz, acontecendo todos os dias, a mais fantástica revolução de toda a história do conhecimento! Abrimos o livro da vida, uma obra que a natureza compôs em 3 bilhões de anos. Aprendemos a entendê-lo, deciframos suas lições, começamos a reescrevê-lo - e ficamos ali dizendo 'ciência', quando devíamos dizer 'genética'"! Ou, mais precisamente, biotecnologia.
Nascida do feliz casamento da biologia com a informática, em pouquíssimos anos de vida essa nova aventura da inteligência humana vem atirando sobre todos nós, a cada dia, um dilúvio de novidades e descobertas com uma rapidez absolutamente espantosa.
A biotecnologia é uma ruptura, garantem os entendidos, comparável ao momento em que o homem, bem lá atrás, dominou o fogo. Não é uma técnica a mais. É o poder de criar e alterar processos e formas orgânicas, nos mundos vegetal, animal e microorgânico. "Assim como no passado manipulamos plásticos e metais, agora estamos trabalhando com matéria viva", comparou um dos mais respeitados cientistas do século, o britânico Lord Ritchie-Calder. Já está acontecendo.
A grande polêmica sobre alimentos transgênicos, produtos de sementes alteradas em laboratório, já se tornou batalha diária entre multinacionais de sementes, governos, cientistas e ambientalistas (ler "As novas cores do verde"). Em centenas de laboratórios, poderosas máquinas separam, lêem e anotam as bilhões de seqüências de bases químicas de genes do homem e de outros organismos.
Breve, florestas inteiras poderão ser "guardadas" (os embriões) em armários, para se remapear a vegetação do planeta. Já se produziu um clone de mosquito cuja picada deposita uma bactéria transformada, que cura a malária, em vez de transmiti-la. E estão lançadas também as bases da poluição genética: curiosos produziram um híbrido de cabra e ovelha e inseriram o gene de um vaga-lume em uma folha de tabaco para fazê-la brilhar. Lá na frente, no centro de toda essa mudança, gurus do meio ambiente como Jeremy Rifkin,  vêem despontar uma "civilização eugênica", capaz de programar as pessoas e corrigir, em seu código genético, tudo o que for considerado inconveniente.
Considerado por quem? Bilhete só de ida.  Esse futuro tem sedes, empregados e ações na bolsa. Nomes como Organogenes, Nanogen, Mycogen, Myriad, Celera, Incyte, Hyseq, Du Pont, Monsanto, Novartis, Aventis - mais de 1.200 empresas de pesquisa, produção e comércio na área de biotecnologia só nos EUA, com perto de 100 mil funcionários.
E o Brasil, quem diria, vai bem nessa corrida: foi o primeiro país fora do eixo EUA-Europa a seqüenciar um genoma vegetal e a criar métodos próprios. Em suma, estamos entrando, sem bilhete de volta, em algo que o biólogo inglês Thomas Huxley imaginou em 1863, em seu livro O Lugar do Homem na Natureza. Ele sugeria, então, que o homem é apenas um estágio transitório no processo evolutivo. E foi justamente um neto dele, o escritor Aldous Huxley, que tentou descrever esse mundo, no clássico Admirável Mundo Novo, em 1932. Um mundo que parece ficção científica mas não é. É apenas a era da biotecnologia chegando. A batalha do genoma. Os mais importantes motores a impulsionar a era biotecnológica, hoje, são os projetos genoma.
Trata-se de levantamentos completos de todos os genes de um organismo. Como a bússola nas antigas navegações, eles são o mapa da mina, a base para se pesquisar qualquer coisa sobre um homem, uma planta, uma bactéria. Imaginada nos anos 50, quando cientistas americanos tentavam entender os efeitos da radioatividade entre as vítimas da bomba atômica, essa idéia só se tornou viável depois que a ciência aprendeu as técnicas da pesquisa genética e criou máquinas para o seqüenciamento das bases químicas de um DNA - ou seja, o registro da interminável série de ácidos A, C, T e G cuja combinação vai constituir um gene.
Aí vem a geneterapia Quando pronto, o Projeto Genoma Humano será uma imensa biblioteca de genes. E depois desse mapeamento vem outra fase decisiva, a do genoma funcional. É quando, através de técnicas complexas, com ajuda de softwares de última geração, se estudam a função dos genes, o modo como eles produzem as proteínas e o papel destas no organismo. Aqui abre-se o campo para especialidades como a neurofisiologia ou a geneterapia (cura pela implantação ou alteração de genes no organismo). "Até o ano 2010, uns 20% dos medicamentos serão agentes geneterápicos", diz o dr. Stephen Russel, da Clinica Mayo, nos EUA.
O Brasil também entra na festa "Entramos sem ser convidados nessa festa, e vamos fazer a nossa parte." É assim, com sorriso confiante e uma ponta de orgulho na voz, que o professor de física da USP José Fernando Perez, 54 anos, descreve o competente salto que deu a pesquisa brasileira, dois anos atrás, quando um grupo de cientistas tramou em São Paulo o início de um projeto genoma - um trabalho que, até então, só se fazia em centros mais adiantados, como Nova York, Tóquio ou Paris.
Os países desenvolvidos investiam fortemente em pesquisa genética e o grupo percebeu que não bastava correr: era preciso "dar um salto". Como diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), que recebe por ano 1% da receita tributária do estado de São Paulo (este ano, cerca de 190 milhões de reais), Peres ajudou a estruturar a aventura: o objetivo não era descobrir isto ou aquilo, era formar gente competente, dotar laboratórios de material novo e adequado, trabalhar em algo útil para o país. A onça contra o tigre. A coisa andou melhor do que eles próprios imaginavam.
Nestes 24 meses, com 34 laboratórios e uns 200 pesquisadores envolvidos em quatro diferentes projetos de genoma, os brasileiros surpreenderam os cientistas estrangeiros com sua rapidez e criatividade. Foi montado um laboratório virtual, assentado em uma rede na Internet, pela qual universidades e centros de todo o Estado se comunicam permanentemente. "Não tem prédio nem administração, os recursos vão todos para a pesquisa", garante Perez. Parodiando o nome TIGR (The International Genome Research, um grande banco de dados de seqüenciamento genético), deu-se a tal rede o nome de ONSA (Organization for Nucleotides Sequencing and Analysis, Organização para Análise e Seqüenciamento de Nucleotídeos), cujo símbolo é uma brasileiríssima onça-pintada. (...)
 (http://www.bv.fapesp.br/namidia/noticia/19995/biotecnologia-futuro-chegou/)

PASSO DOIS
            Escolhido o assunto, preciso levantar os pontos a favor e os contra sobre o tema, já que terei de escolher um lado para defender e argumentar. Para levantar esses pontos, só a reportagem talvez não seja suficiente. Talvez seja preciso eu juntar meu conhecimento prévio sobre tal questão. Em nossa prova de quinta-feira vocês terão dois textos e mais as discussões sobre o assunto feitas em sala. Por isso, é importante que vocês tenham prestado bastante atenção a tudo o que eu disse quando expliquei o tema da apostila sobre... (será que eu antecipo o assunto?) anúncios publicitários.


ARGUMENTOS CONTRÁRIOS



  • Brincar de Deus
  • Como o conhecimento científico está centrado nas mãos de grandes conglomerados internacionais, talvez seus benefícios não alcancem todas as pessoas de forma igualitária.
  • Possibilidade de criar um abismo ainda maior entre os mais ricos e os mais pobres, já que somente aqueles que puderem pagar pelo tratamento de última geração serão verdadeiramente beneficiados pela nova ciência.
  • A Biotecnologia já deu mostras de que pode beneficiar somente os mais poderosos; vide o exemplo da soja transgênica, criada por uma grande empresa transnacional, que patenteou a criação e somente ela se beneficiou dos lucros gerados pela nova cultura. Quem quisesse produzir a soja geneticamente modificada teria de se comprometer apenas com essa empresa.

ARGUMENTOS EM PROL DA BIOTECNOLOGIA

                                           
  • Avanço científico.
  • Pode trazer muitos benefícios à raça humana
  • Pode elucidar muitos dos mistérios que envolve a natureza, ajudando o homem alcançar melhores resultados na produção de alimentos e remédios, por exemplo. 
  • Permitirá que o homem possa centrar-se mais na ciência do que no misticismo para compreender a vida humana. 
  • A ciência será capaz de curar doenças antes mesmo de um indivíduo nascer, a partir do mapeamento genético e do tratamento pela geneterapia.
  • Cada indivíduo poderá conhecer seu corpo e seu futuro, podendo antecipar o tratamento de doenças que só surgirão muito mais tarde em sua vida.

  • O mapeamento genético, da mesma forma que pode contribuir para a descoberta antecipada de doenças, pode marginalizar seus portadores. Se esse conhecimento for usado apenas por quem detém o poder político e econômico, por exemplo, empresas só contratarão pessoas que não desenvolvam doenças graves, o que normalmente encarece o custo do empregado para a corporação. Criar-se-ia, assim, uma legião de novos marginalizados. Já temos os negros, os amarelos, os muçulmanos e talvez viesse a surgir os potencialmente “adoecíveis” (neologismo – criado por mim – aquele(s) que potencialmente podem vir a adoecer).
  • Criação de seres híbridos – meio humano,  meio animal – baseando-se nas melhores características de cada um desses seres.
 

TERCEIRO PASSO
            Encontrar uma solução para os problemas gerados pela nova ciência. Neste caso, se eu optar por realçar os contras, devo dar uma solução para esse impasse.

QUARTO PASSO
            Tomar coragem e começar a escrever meu texto. Devo fazer uma pequena contextualização sobre assunto, introduzindo-o e apresentando a minha tese, a minha idéia a ser defendida. Neste caso, não serei nem contra nem a favor. Vou tentar mediar o assunto, pois não há como negar que a biotecnologia pode e deve ser usada em favor de toda a humanidade. Partindo dessa minha decisão, fica mais fácil, inclusive, encontrar uma solução para o problema. Buda já dizia, há centenas de anos: o melhor caminho é o caminho do meio. Quem sou eu para questionar sua sabedoria. Vamos lá.
            O século XX é reconhecidamente aquele dedicado à expansão do conhecimento e à ciência. Não há como negar que o homem evoluiu muito mais nestes últimos cem anos do que nos 30 mil anteriores. Os cientistas comemoram a virada para o século XXI com a mais nova epidemia de confiança no futuro. Chegamos ao ponto em que desvendamos os caminhos para o conhecimento sobre toda a natureza, nela incluído o homem.
            A biotecnologia surge como a panacéia que poderá curar todos os males, da fome física e orgânica à fome pelo conhecimento. Estamos cada vez mais próximos de sermos capazes de brincar de deus. Mas (aliás, como em toda novidade, nessa também há um “mas”) é possível que todo esse novo conhecimento venha a atingir o homem comum ou será ele mais uma arma em favor do aumento do abismo que separa os mais ricos e poderosos dos mais pobres? Estamos diante da cura de um determinado mal ou daquilo que poderá provocar malefícios ainda maiores contra os mais indefesos? Há muito o que se perguntar e talvez pouco tempo para nos aprofundarmos e conhecer as respostas.(minha tese)
            O que há de concreto a favor e contra a nova ciência é, primeiro, ela significa realmente um grande avanço científico e, como tal, não pode simplesmente ser ignorada e guardada na “caixa de pandora” pelo medo que temos de suas conseqüências.

            Segundo, também não há como negar que a nova ciência pode trazer muitos benefícios à raça humana, elucidando os mistérios que envolvem a natureza, ajudando o homem a alcançar melhores resultados na produção de alimentos e remédios, por exemplo.

            Essa nova ciência será capaz de curar doenças antes mesmo de um indivíduo nascer, a partir do mapeamento genético e do tratamento pela geneterapia. Cada indivíduo poderá conhecer seu corpo e seu futuro, podendo antecipar o tratamento de doenças que só surgirão muito mais tarde em sua vida. Também é sabido que ela permite que o homem valha-se mais ainda da ciência e deixe de ser manipulado pelo misticismo para compreender a vida humana.
            Por outro lado, há muitas dúvidas pairando sobre a aplicação dessa nova e aparente milagrosa ciência. Como esse novo conhecimento científico está centrado nas mãos de grandes conglomerados internacionais, talvez seus benefícios não alcancem todas as pessoas de forma igualitária.
            Além disso, existe sempre a possibilidade de criar um abismo ainda maior entre os mais ricos e os mais pobres, já que somente aqueles que puderem pagar pelo tratamento de última geração serão verdadeiramente beneficiados pela nova ciência.
            A Biotecnologia já deu mostras de que pode beneficiar somente os mais poderosos; vide o exemplo da soja transgênica, criada por uma grande empresa transnacional, que patenteou a criação e somente ela se beneficiou dos lucros gerados pela nova cultura. Quem quisesse produzir a soja geneticamente modificada teria de se comprometer apenas com essa empresa.
            Outra possibilidade assustadora é o mapeamento genético. Da mesma forma que pode contribuir para a descoberta antecipada de doenças, pode marginalizar seus portadores. Se esse conhecimento for usado apenas por quem detém o poder político e econômico, por exemplo, empresas só contratarão pessoas que não desenvolvam doenças graves, o que normalmente encarece o custo do empregado para a corporação. Criar-se-ia, assim, uma legião de novos marginalizados. Já temos os negros, os amarelos, os muçulmanos e talvez viesse a surgir os potencialmente “adoecíveis”.
            Isso, se pararmos por aí e sequer cogitarmos a possibilidade da criação de seres híbridos – meio humano,  meio animal – baseando-se nas melhores características de cada um desses seres.
            Quem, ao lado dessa nova ciência, pode surgir para nos garantir que seremos todos beneficiados, e não explorados (mais uma vez) por ela? Essa é a questão que realmente importa. Leis. É preciso que governos de todas as partes do mundo antecipem-se a esse novo conhecimento e criem leis que coloquem limites em seu poderio.
            Não defenderei a limitação de pesquisas. Isso não. Mas elas não podem ferir os direitos básicos de todo cidadão. Seu uso deve ser o mais amplo possível, desde que alcance a todos igualmente. Uma forma de isso acontecer seria a obrigatoriedade de que cada nova descoberta médica, por exemplo, fosse usada simultaneamente em hospitais particulares e públicos. Mais, que cada nova descoberta só pudesse ser usada pelos mais ricos se antes os mais desafortunados a ela tivessem acesso.
            Se puder haver mais comida para uns, então que haja comida para todos. Se puder haver mais remédio para uns, então que haja para todos. Se puder haver prosperidade para uns, então que haja para todos, igualmente. A melhor forma de se aplacar a ganância é exterminá-la ainda no ninho. Explico. Antes mesmo de alguém pensar em se beneficiar sozinho dos resultados da biotecnologia, é preciso detê-lo e obrigá-lo a dividir esses resultados com todos. Talvez seja essa a única solução para não se sentir tentado a brincar de deus. Não fomos feitos para isso; falta-nos humildade para tanto.

QUINTO PASSO
            Fazer a revisão final, eliminando as orações subordinativas (aquelas cheias de “quês”), a falta de pontuação, os erros de paragrafação, a troca de palavras por sinônimos – para não haver repetição – e tudo o mais que puder deixar nosso texto mais claro. Meu texto, por exemplo, ficou muito extenso. Se tivesse que me ater às 30 linhas de um vestibular, teria que cortar muita coisa. Mas não vou fazer isso, por hora. Como o assunto era fácil, ficou fácil também encontrar tantos argumentos prós e contra. Nem sempre isso é possível. Se você achar dois ou três, já está bom demais.
SEXTO PASSO
            Encontrar um bom título, assinar o artigo, já que todo artigo deve ser assinado (a não ser que a proposta da prova diga algo em contrário) e colocar minhas referências no rodapé da página. Lembre-se que tudo isso conta como linhas escritas, por isso, cuidado para não exceder ao número máximo permitido quando se tratar do vestibular.
            O resultado final ficaria assim:

Esse admirável mundo novo(1)
Marilza Reis*
            O século XX foi reconhecidamente aquele dedicado à expansão do conhecimento e à ciência. Não há como negar que o homem evoluiu muito mais nestes últimos cem anos do que nos 30 mil anteriores. Os cientistas comemoram a virada para o século XXI com a mais nova epidemia de confiança no futuro. Chegamos ao ponto em que desvendamos os caminhos para o conhecimento sobre toda a natureza, nela incluído o homem.
            A biotecnologia surge como a panacéia que poderá curar todos os males, da fome física e orgânica à fome pelo conhecimento. Estamos cada vez mais próximos de sermos capazes de brincar de deus. Mas (aliás, como em toda novidade, nessa também há um “mas”) é possível que todo esse novo conhecimento venha a atingir o homem comum ou será ele mais uma arma em favor do aumento do abismo que separa os mais ricos e poderosos dos mais pobres? Estamos diante da cura de um determinado mal ou daquilo que poderá provocar malefícios ainda maiores contra os mais indefesos? Há muito o que se perguntar e talvez pouco tempo para nos aprofundarmos e conhecer as respostas.
            O que há de concreto a favor e contra a nova ciência é, primeiro, ela significa realmente um grande avanço científico e, como tal, não pode simplesmente ser ignorada e guardada na “caixa de pandora” pelo medo que temos de suas conseqüências.

            Segundo, também não há como negar que a nova ciência pode trazer muitos benefícios à raça humana, elucidando os mistérios que envolvem a natureza, ajudando o homem a alcançar melhores resultados na produção de alimentos e remédios, por exemplo.

            Essa nova ciência será capaz de curar doenças antes mesmo de um indivíduo nascer, a partir do mapeamento genético e do tratamento pela geneterapia. Cada indivíduo poderá conhecer seu corpo e seu futuro, podendo antecipar o tratamento de doenças que só surgirão muito mais tarde em sua vida.      Também é sabido que ela permite que o homem valha-se mais ainda da ciência e deixe de ser manipulado pelo misticismo para compreender a vida humana.
            Por outro lado, há muitas dúvidas pairando sobre a aplicação dessa nova e aparente milagrosa ciência. Como esse novo conhecimento científico está centrado nas mãos de grandes conglomerados internacionais, talvez seus benefícios não alcancem todas as pessoas de forma igualitária.
            Além disso, existe sempre a possibilidade de criar um abismo ainda maior entre os mais ricos e os mais pobres, já que somente aqueles que puderem pagar pelo tratamento de última geração serão verdadeiramente beneficiados pela nova ciência.
            A Biotecnologia já deu mostras de que pode beneficiar somente os mais poderosos; vide o exemplo da soja transgênica, criada por uma grande empresa transnacional, que patenteou a criação e somente ela se beneficiou dos lucros gerados pela nova cultura. Quem quisesse produzir a soja geneticamente modificada teria de se comprometer apenas com essa empresa.
            Outra possibilidade assustadora é o mapeamento genético. Da mesma forma que pode contribuir para a descoberta antecipada de doenças, pode marginalizar seus portadores. Se esse conhecimento for usado apenas por quem detém o poder político e econômico, por exemplo, empresas só contratarão pessoas que não desenvolvam doenças graves, o que normalmente encarece o custo do empregado para a corporação. Criar-se-ia, assim, uma legião de novos marginalizados. Já temos os negros, os amarelos, os muçulmanos e talvez viesse a surgir os potencialmente “adoecíveis”.
            Isso, se pararmos por aí e sequer cogitarmos a possibilidade da criação de seres híbridos – meio humano,  meio animal – baseando-se nas melhores características de cada um desses seres.
            Quem, ao lado dessa nova ciência, pode surgir para nos garantir que seremos todos beneficiados, e não explorados (mais uma vez) por ela? Essa é a questão que realmente importa. Leis. É preciso que governos de todas as partes do mundo antecipem-se a esse novo conhecimento e criem leis que coloquem limites em seu poderio.
            Não defenderei a limitação de pesquisas. Isso não. Mas elas não podem ferir os direitos básicos de todo cidadão. Seu uso deve ser o mais amplo possível, desde que alcance a todos igualmente. Uma forma de isso acontecer seria a obrigatoriedade de que cada nova descoberta médica, por exemplo, fosse usada simultaneamente em hospitais particulares e públicos. Mais, que cada nova descoberta só pudesse ser usada pelos mais ricos se antes os mais desafortunados a ela tivessem acesso.
            Se puder haver mais comida para uns, então que haja comida para todos. Se puder haver mais remédio para uns, então que haja para todos. Se puder haver prosperidade para uns, então que haja para todos, igualmente. A melhor forma de se aplacar a ganância é exterminá-la ainda no ninho. Explico. Antes mesmo de alguém pensar em se beneficiar sozinho dos resultados da biotecnologia, é preciso detê-lo e obrigá-lo a dividir esses resultados com todos. Talvez seja essa a única solução para não se sentir tentado a brincar de deus. Não fomos feitos para isso; falta-nos humildade para tanto.

1. O título é uma homenagem ao livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley

(*) Marilza Reis é Licenciada em Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa pela UFMT e Professora do Ensino Médio na cidade de Campo Verde-MT.

Atenção: o número que vocês estão vendo ao lado do título não é para ser usado nas produções de vocês, a não ser que queiram colocar uma citação com nota de rodapé. Eu o coloquei lá para explicar a escolha desse nome. Trata-se de intertextualidade e homenagem a Aldous Huxley, autor citado na reportagem, de quem li a obra mencionada e assisti ao filme também. Aliás, maravilhoso!



3 comentários:

  1. deixa ver se entendi:

    .Título
    .Assinatura
    texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto texto.
    *mas não entendi o final. Desculpe, mas você pode fazer uma estruturazinha básica para mim, por favor. Muito obrigado.

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  2. Por favor, gostaria que senhora postasse um "passo a passo" sobre a carta do leitor e a carta argumentativa.

    Desde já agradeço!

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